Corria tudo bem nos jardins do embaixador Alencastro, Dona Antônia sua fiel esposa ainda degustava a segunda caipirosca e Paco, com o acompanhamento do pandeiro de Paquita, executava um fado pós-moderno de um obscuro grupo de rock que chorava um desengano amoroso pela internet.
Delete, delete,
delete este caso de amor
mas não vá buscar na lixeira
o mesmo arquivo que já deletou...
De inopino, o cantor largou o violão de sete cordas e bradou com todas as letras e a todos pulmões:
__ V A G A B U N D A!!!!
Um silêncio sepulcral dominou os jardins da embaixada e os únicos sons audíveis por alguns segundos foram o borbulhar do cassoulet e o gorgéio de uma sabiá na laranjeira. Logo um burburinho formou-se. A senha para tal fora do cônsul Miranda, com sua famosa expressão __ Merida!!! __ depois, nem uma palavra era distinguível, como se a torre de Balbel acabasse de ruir naquele instante. O coronel Siqueira levou a mão á cintura e acariciou o coldre da arma dentro da pochete. O terceiro secretário da embaixada da Coreia do Norte, Chin Pand Tsé, em seu uniforme oficial coberto de condecorações, correu até a mesa próxima ao palco e tentava arrastar sua esposa para longe do local gritando o que pareciam impropérios em sua(dele) língua natal em direção do cantor.
É que o alvo do elogio de Paco, soube-se depois, fora Tomico, a esposa do terceiro secretário. Quem a via pela primeira vez não imaginava-lhe o génio e, mais característico, o matraquear incessante capaz de deixar sem fôlego qualquer interlocutor; parecida com aquelas bonecas de porcelana japonesas, pele de seda e olhar angelical, mas ninguém escapava do seu falatório. Uma vez, em outro domingo, para quebrar o gelo em uma roda de funcionários da embaixada americana começou:
__ Pois é, eu aqui, com três corruptos porcos capitalistas...
Foi o bastante para tagarelar solo por cinco minutos, tempo suficiente para que os três constrangidos saíssem de fininho, um a um, deixando-a a falar sozinha.
Frequentava a embaixada sempre encangada com Amelie Catran do Haití e Suely Galvão, antiga vedete que pintava-se e vestia-se como no tempo em que ainda era bonita e desejada pelos homens que a apelidavam de Cadilac, uma referência ao famoso modelo de automóvel americano com rabo de peixe, da época de sua(dela) juventude.
As três tagarelavam na mesa próxima ao palco, falando todas ao mesmo tempo sem importar-se com o que as outras diziam. Paco já pedira que falassem mais baixo várias vezes e nada. Mas o estopim da explosão do cantor foi um Dó desafinado que Tomico, propositadamente, emitiu de falsete com o olhar fixo no músico.
Agitadíssimo, parecendo um boneco de pilha nova, Ferdinando Peñarol, vice cônsul da Espanha, galantemente e mais ofendido que o marido coreano exigia desculpas de Paco. Aquele, em mal português só repetia diplomaticamente:
__Tomico não é “bagabunda”, Tomico não é “bagabunda”. Só está emocionalmente "na balada".
Paco, balbuciou um constrangido “Desculpe-me dona Tomico, excedi-me”. Guardou a viola no saco e quase no portão foi atalhado por Dom Alencastro e Dona Antônia.
__ Não se arrelie, Paco. A partir de domingo ela estará bloqueada, disse Dona Antonia.
Dom Alencastro arrematou:
__ Só havias de usar “vagabunda” no plural, e bloquearia as três.